DESASSOSSEGO


12/10/2005


Fui para a cama com todos os sentimentos,  
Fui souteneur de todas ás emoções,  
Pagaram-me bebidas todos os acasos das sensações,  
Troquei olhares com todos os motivos de agir,  
Estive mão em mão com todos os impulsos para partir,  
Febre imensa das horas!  
Angústia da forja das emoções!  
Raiva, espuma, a imensidão que não cabe no meu lenço,  
A cadela a uivar de noite,  
O tanque da quinta a passear à roda da minha insônia,  
O bosque como foi à tarde, quando lá passeamos, a rosa,  
A madeixa indiferente, o musgo, os pinheiros,  
Toda a raiva de não conter isto tudo, de não deter isto tudo,  
Ó fome abstrata das coisas, cio impotente dos momentos,  
Orgia intelectual de sentir a vida!  

Escrito por Míriã Barbosa às 00h26
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Sentir tudo de todas as maneiras,  
Viver tudo de todos os lados,  
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,  
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos  
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.  

Escrito por Míriã Barbosa às 00h24
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Álvaro de Campos
 
Todas as Cartas de Amor são Ridículas
 
       Todas as cartas de amor são
       Ridículas.
       Não seriam cartas de amor se não fossem
       Ridículas.

       Também escrevi em meu tempo cartas de amor, 
       Como as outras,
       Ridículas.

       As cartas de amor, se há amor, 
       Têm de ser
       Ridículas.

       Mas, afinal,
       Só as criaturas que nunca escreveram 
       Cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       Quem me dera no tempo em que escrevia 
       Sem dar por isso
       Cartas de amor
       Ridículas.

       A verdade é que hoje 
       As minhas memórias 
       Dessas cartas de amor 
       É que são
       Ridículas.

       (Todas as palavras esdrúxulas,
       Como os sentimentos esdrúxulos,
       São naturalmente
       Ridículas.)

Escrito por Míriã Barbosa às 00h19
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Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(Tabacaria-Álvaro de Campos)

Escrito por Míriã Barbosa às 00h17
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Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz. 
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. 
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, 
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo

( Álvaro Campos - Tabacaria)

Escrito por Míriã Barbosa às 00h13
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Albert-Joseph Pénot (French, 1870-?), Nude with red flowers in hair   Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Escrito por Míriã Barbosa às 00h00
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FeminaRuth, Francesco Hayez, 1791-1882

 

 

Soares  Feitosa

       

      Não lavei os seios 

    pois tinham o calor 

      da tua mão. 

       Não lavei as mãos
    pois tinham os sons 
       do teu corpo.
       Não lavei o corpo
    pois tinha os rastros
       dos teus gestos;
    tinha também, o meu corpo,
       a sagrada profanação
    do teu olhar
       que não lavei.
      Nem aqueles lençóis,
    não os lavei,
      nem os espelhos,
    que continuam
      onde sempre estiveram:
    porque eles nos viram
      cúmplices, e a paixão,
    no paraíso, 
      parece que era.
      Lavei, sim, 
    lavei e perfumei
      a alma,  em jasmim,
    que é tua, só tua,
      para te esperar
    como se nunca tivesses ido
      a nenhum lugar:
    donde apaguei
      todas as ausências
    que apaguei 
       ao teu olhar.

       

      Salvador, madrugada alta, 6.10.95

Escrito por Míriã Barbosa às 23h55
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4o. Motivo da rosa


Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.


Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.


Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.


E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Escrito por Míriã Barbosa às 23h49
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Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Escrito por Míriã Barbosa às 23h47
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Lembra de mim....

dos beijos que escrevi nos muros a giz

os mais bonitos continuam por lá

documentando que alguém foi feliz.

 Lembra de mim....

 nós dois nas ruas provocando os casais

amando mais do que o amor é capaz

 perto daqui a tempos atrás.

  Lembra de mim...

a gente sempre se casava ao luar

 depois jogava os nossos corpos no mar

 tão naufragados e exaustos de amar.

 Lembra de mim....

se existe um pouco de prazer em sofrer

 querer te ver, talvez eu fosse capaz

perto daqui ou tarde demais.

  Lembra de mim.... 

Escrito por Míriã Barbosa às 23h38
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11/10/2005


O quase

    Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.
    É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
    Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
    Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. 
    Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. 
    A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. 
    Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. 
    A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. 
    Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. 
    Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. 
    O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. 
    Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. 
    Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. 
    Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. 
    Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Escrito por Míriã Barbosa às 11h09
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10/10/2005


Para Quem Ainda Não Desistiu ...



Não me
interessa saber como você ganha a vida.
Quero saber o que mais deseja e
se ousa sonhar em satisfazer os desejos de seu coração.
Não me interessa
saber sua idade.
Quero saber se você correria o risco de parecer tolo
por amor, pelo seu sonho, pela aventura de estar vivo.
Não me interessa
saber que planetas estão em quadratura com a lua.
O que quero saber é se
você já foi até o fundo de sua própria tristeza, se as traições da vida o
enriqueceram ou se você se retraiu e se fechou, com medo de mais dor.

Quero saber se você consegue conviver com a dor, a minha ou a sua, sem
tentar escondê-la, disfarçá-la ou remediá-la.
Quero saber se é capaz de
conviver com a alegria, a minha ou a sua, de dançar com total abandono e
deixar o êxtase
penetrar até a ponta dos dedos, sem nos advertir que sejamos cuidadosos, que
sejamos realistas, que nos lembremos das limitações da condição humana.

Não me interessa se a história que você me conta é verdadeira. Quero
saber se você é capaz de desapontar o outro para manter-se fiel a si mesmo.
Se é capaz de suportar uma acusação de traição e não trair sua própria alma,
ou ser infiel e, mesmo assim, ser digno de confiança.
Quero saber se
você é capaz de enxergar a beleza no dia a dia, ainda que ela não seja
bonita, e fazer dela a sua fonte de vida .
Quero saber se você consegue
viver com o fracasso, o seu e o meu, e ainda assim pôr-se de pé na beira do
lago e gritar para o reflexo prateado da lua cheia : "SIM !" .
Não me
interessa saber onde você mora ou quanto dinheiro tem. Quero saber se, após
uma noite de tristeza e desespero, exausto e ferido até os ossos, é capaz de
fazer o que precisa ser feito para alimentar seus filhos.
Não me
interessa quem você conhece ou como chegou até aqui. Quero saber se vai
permanecer no centro do fogo comigo sem recuar.
Não me interessa onde, o
que ou com quem estudou. Quero saber o que o sustenta, no seu íntimo, quando
tudo mais desmorona.
Quero saber se é capaz de ficar só consigo mesmo, e
se nos momentos vazios realmente gosta da sua companhia.

 

Escrito por Míriã Barbosa às 19h56
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